Macau

Quando na noite de 19 de Dezembro de 1999, assisti em directo pela TV, às cerimónias de devolução de MACAU à China, lembrei-me de um apontamento que outrora escrevera a pedido de um camarada e que passo a transcrever com algumas alterações.
“ Era a hora do sol mergulhar nas águas amarelas do estuário do rio das pérolas, não fosse o facto de chover torrencialmente nesse fim de tarde do dia 31 de Agosto de 1960, quando o Fatsan, um dos dois Ferries que asseguravam nesse tempo a ligação entre Hong Kong e Macau, atracava na “Pat O MaTau ” (ponte n.º 8) do porto interior da cidade do Santo nome de Deus – Macau.
Acotovelavam-se os chineses que à minha volta tentavam lograr uma posição que lhes permitisse desembarcar o mais depressa possível.
Mesmo depois de ter passado já umas horas em Hong Kong, pois chegara na tarde do dia anterior ao aeroporto de Tai Pack, o que me rodeava era estranho e submerso num ambiente de misterioso exotismo, onde cabia o forte cheiro a chá que impregnava o barco de onde me preparava para desembarcar.
Com a mala numa das mãos e a espada na outra, os meus olhos perscrutavam os que se encontravam em terra, na esperança de ver um rosto ocidental familiar ou mesma uma qualquer farda. Pareceu-me vislumbrar um rosto de branco com um farto bigode e chapéu branco de palhinha, encostado a uma parede de um pequeno edifício do cais, mas cedo deixei de o ver.
Quando pisei o cais dirigi-me a um chinês fardado (talvez macaense ou não, porque para mim nessa altura eram todos iguais), agente da Policia Marítima, dizendo para os meus botões – “Até que em fim vou poder falar português, o que já não fazia há três dias”
Qual quê! A minha primeira desilusão aí estava! O tal agente fardado, quando o interpelei dizendo quem era e pedindo-lhe orientação para chegar a alguém da Marinha, mimoseou-me com uma algarviada, perdão, uma chinesada, que me deixou ali especado e sem saber o que fazer. Apareceu, no entanto um outro agente, falando muito mal português, mas que me convidou a segui-lo. Lá fui transportado num velho Land Rover, bater à porta de uma das três casas de uma rua sem saída na encosta de uma colina e que mais tarde vim a saber que se chamava a “aldeia das três casas”.
À porta apareceu-me uma senhora que olhando para mim com ar interrogativo me disse ser a esposa do ten. Á., mas Ele não estava. Convidou-me a entrar e a esperar um pouco porque ele não deveria demorar muito. E ali fiquei. Estava em casa do Tenente Á., esse oficial de Administração Naval, Bom com um B grande, pois nunca lhe consegui descobrir o lado mau, competente e um excelente camarada. Recebeu-me com o seu sorriso simpático enquanto me dizia: “Então você chegou hoje? O N. não estava à sua espera no cais? Onde é que ele se terá metido? Referia-se ao ten.. Eng. Maquinista F. S. N., Director das Oficinas Navais de Macau e que há já uns meses esperava o seu substituto que seria eu. Já mandara a família para Portugal há muito tempo e andava a dizer a toda a gente que com ou sem substituto ia regressar.
Enquanto o eng. N. esperava e desesperava em Macau eu, em Lisboa, quase todos os dias ia à repartição que tratava dos movimentos saber se ia ou não para Macau e se um dia me diziam que sim no dia seguinte diziam que não, até que um dia, passados meses, fui confrontado com a urgência das urgências e a partir daí, foi tudo muito rápido – inspecções médicas, certificado internacional de saúde, passaporte etc. etc. E a família? “Ah! pois é, você tem família! Pois, mas essa vai depois! Clamei, barafustei mas nada consegui! Avião da PANAM e ele aí vai.
A família, a mulher e uma filha de 2 anos seguiriam no confortável paquete Timor com escala de 10 dias na Índia! Quando um mês e tal mais tarde recebi a família iam em tão mau estado que a filha parecia um bicho cheia daquela borbulhagem provocada pelos grandes calores e que vulgarmente é conhecida por “pica pica” ou líquen.
Mas deixemos estes pormenores, que os chefes consideram de somenos importância. Ainda terei oportunidade de recordar o regresso de Macau, que também teve a sua graça, amarela já se vê!
Voltemos ao tal dia da chegada.
O Ten. Á. foi comigo à Oficinas Navais, dentro das quais se encontrava a minha futura residência.
O carro desceu a colina até a uma avenida marginal que acompanhava a curva da Baia Grande até à entrada do Porto Interior, ladeada por velhas árvores, passou junto do matadouro com o seu cheiro peculiar a porca...ria, entrou nas instalações das Oficinas Navais e imobilizou-se ao cimo de uma rampa com carris que mergulhavam nas águas de numa pequena doca, a de D. Carlos se a memória não me atraiçoa.
“É aqui”, disse o Ten. Á. sempre com o seu melhor sorriso.
O barulho da chuva a cair sobre os telhados de zinco que cobriam os edifícios e telheiros das Oficinas era ensurdecedor.
Entretanto tinha anoitecido e a iluminação não era nada famosa.
Olhei com uma certa dificuldade o pequeno edifício à porta do qual o carro se imobilizara e subimos as escadas de acesso ao terraço da entrada da moradia que se situava por cima da oficina de carpintaria e que se assemelhava mais a um espigueiro minhoto do que a uma residência.
Experimentámos a porta da casa que estava aberta e entrámos. A casa estava completamente vazia e deserta.
“È aqui “, repetiu o tem Á. “desenrasque-se”. E abalou!
Não sei precisar que horas eram.
Percorri a pequena casa que era constituída por um quarto com uma antecâmara onde se situava a casa de banho, uma sala com outra antecâmara e duas divisões numa marquise sobranceira à doca.
Era uma coisa Famosa!
O soalho de madeira de teca rangia sob o peso dos meus passos e aqui e ali pareceu-me esburacado. O calor era intenso a atmosfera húmida parecia irrespirável o suor alagava-me por completo, mas lá estava uma ventoinha no teto para melhor espalhar o calor!.
Deitei-me sobre a única cama que encontrei, com o colchão nu e lutei com o calor e com o barulho da chuva sobre os telhados de zinco até que a fadiga se sujeitou ao sono!
Acordei pela manhã ao som de um pregão cuja música ainda retenho na memória
“Mai Min pau – Mai Min pau....” Saberia mais tarde que era o pregão do padeiro “Compra pão, compra pão.”
“ Era a hora do sol mergulhar nas águas amarelas do estuário do rio das pérolas, não fosse o facto de chover torrencialmente nesse fim de tarde do dia 31 de Agosto de 1960, quando o Fatsan, um dos dois Ferries que asseguravam nesse tempo a ligação entre Hong Kong e Macau, atracava na “Pat O MaTau ” (ponte n.º 8) do porto interior da cidade do Santo nome de Deus – Macau.
Acotovelavam-se os chineses que à minha volta tentavam lograr uma posição que lhes permitisse desembarcar o mais depressa possível.
Mesmo depois de ter passado já umas horas em Hong Kong, pois chegara na tarde do dia anterior ao aeroporto de Tai Pack, o que me rodeava era estranho e submerso num ambiente de misterioso exotismo, onde cabia o forte cheiro a chá que impregnava o barco de onde me preparava para desembarcar.
Com a mala numa das mãos e a espada na outra, os meus olhos perscrutavam os que se encontravam em terra, na esperança de ver um rosto ocidental familiar ou mesma uma qualquer farda. Pareceu-me vislumbrar um rosto de branco com um farto bigode e chapéu branco de palhinha, encostado a uma parede de um pequeno edifício do cais, mas cedo deixei de o ver.
Quando pisei o cais dirigi-me a um chinês fardado (talvez macaense ou não, porque para mim nessa altura eram todos iguais), agente da Policia Marítima, dizendo para os meus botões – “Até que em fim vou poder falar português, o que já não fazia há três dias”
Qual quê! A minha primeira desilusão aí estava! O tal agente fardado, quando o interpelei dizendo quem era e pedindo-lhe orientação para chegar a alguém da Marinha, mimoseou-me com uma algarviada, perdão, uma chinesada, que me deixou ali especado e sem saber o que fazer. Apareceu, no entanto um outro agente, falando muito mal português, mas que me convidou a segui-lo. Lá fui transportado num velho Land Rover, bater à porta de uma das três casas de uma rua sem saída na encosta de uma colina e que mais tarde vim a saber que se chamava a “aldeia das três casas”.
À porta apareceu-me uma senhora que olhando para mim com ar interrogativo me disse ser a esposa do ten. Á., mas Ele não estava. Convidou-me a entrar e a esperar um pouco porque ele não deveria demorar muito. E ali fiquei. Estava em casa do Tenente Á., esse oficial de Administração Naval, Bom com um B grande, pois nunca lhe consegui descobrir o lado mau, competente e um excelente camarada. Recebeu-me com o seu sorriso simpático enquanto me dizia: “Então você chegou hoje? O N. não estava à sua espera no cais? Onde é que ele se terá metido? Referia-se ao ten.. Eng. Maquinista F. S. N., Director das Oficinas Navais de Macau e que há já uns meses esperava o seu substituto que seria eu. Já mandara a família para Portugal há muito tempo e andava a dizer a toda a gente que com ou sem substituto ia regressar.
Enquanto o eng. N. esperava e desesperava em Macau eu, em Lisboa, quase todos os dias ia à repartição que tratava dos movimentos saber se ia ou não para Macau e se um dia me diziam que sim no dia seguinte diziam que não, até que um dia, passados meses, fui confrontado com a urgência das urgências e a partir daí, foi tudo muito rápido – inspecções médicas, certificado internacional de saúde, passaporte etc. etc. E a família? “Ah! pois é, você tem família! Pois, mas essa vai depois! Clamei, barafustei mas nada consegui! Avião da PANAM e ele aí vai.
A família, a mulher e uma filha de 2 anos seguiriam no confortável paquete Timor com escala de 10 dias na Índia! Quando um mês e tal mais tarde recebi a família iam em tão mau estado que a filha parecia um bicho cheia daquela borbulhagem provocada pelos grandes calores e que vulgarmente é conhecida por “pica pica” ou líquen.
Mas deixemos estes pormenores, que os chefes consideram de somenos importância. Ainda terei oportunidade de recordar o regresso de Macau, que também teve a sua graça, amarela já se vê!
Voltemos ao tal dia da chegada.
O Ten. Á. foi comigo à Oficinas Navais, dentro das quais se encontrava a minha futura residência.
O carro desceu a colina até a uma avenida marginal que acompanhava a curva da Baia Grande até à entrada do Porto Interior, ladeada por velhas árvores, passou junto do matadouro com o seu cheiro peculiar a porca...ria, entrou nas instalações das Oficinas Navais e imobilizou-se ao cimo de uma rampa com carris que mergulhavam nas águas de numa pequena doca, a de D. Carlos se a memória não me atraiçoa.
“É aqui”, disse o Ten. Á. sempre com o seu melhor sorriso.
O barulho da chuva a cair sobre os telhados de zinco que cobriam os edifícios e telheiros das Oficinas era ensurdecedor.
Entretanto tinha anoitecido e a iluminação não era nada famosa.
Olhei com uma certa dificuldade o pequeno edifício à porta do qual o carro se imobilizara e subimos as escadas de acesso ao terraço da entrada da moradia que se situava por cima da oficina de carpintaria e que se assemelhava mais a um espigueiro minhoto do que a uma residência.
Experimentámos a porta da casa que estava aberta e entrámos. A casa estava completamente vazia e deserta.
“È aqui “, repetiu o tem Á. “desenrasque-se”. E abalou!
Não sei precisar que horas eram.
Percorri a pequena casa que era constituída por um quarto com uma antecâmara onde se situava a casa de banho, uma sala com outra antecâmara e duas divisões numa marquise sobranceira à doca.
Era uma coisa Famosa!
O soalho de madeira de teca rangia sob o peso dos meus passos e aqui e ali pareceu-me esburacado. O calor era intenso a atmosfera húmida parecia irrespirável o suor alagava-me por completo, mas lá estava uma ventoinha no teto para melhor espalhar o calor!.
Deitei-me sobre a única cama que encontrei, com o colchão nu e lutei com o calor e com o barulho da chuva sobre os telhados de zinco até que a fadiga se sujeitou ao sono!
Acordei pela manhã ao som de um pregão cuja música ainda retenho na memória
“Mai Min pau – Mai Min pau....” Saberia mais tarde que era o pregão do padeiro “Compra pão, compra pão.”
4 Comentários:
A riqueza dos pormenores têm a capacidade de nos fazer viajar algures em Macau para o ano de 1960. Muito bem escrito e quase que viciante. Aguardo o dia seguinte...
Abraço Forte
Vivencias de uma VIDA NAVAL, raramente compreendidas, por quem, sem nunca lá ter vivido,decide, deternina e, legisla!!!!
Cumptos.
Prud.
MUITO BEM....GOSTEI,EIDE VIR MAIS VEZES...CONTINUEI...ABRAÇOS, NUNO VIEGAS,
gostei muito. tem mais histórias e imagens de macau? liceumacau@gmail.com
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